O Brasil já tem a chave da transição energética. Falta acelerar o movimento.
Por Ágata Turini
Muito se fala sobre transição energética como um desafio do futuro, associado a tecnologias emergentes e soluções que ainda parecem distantes da realidade. Mas uma das maiores oportunidades para transformar a matriz energética brasileira já existe, está em operação e nasce da força do nosso agronegócio.
Recentemente, durante uma entrevista no programa Visão de Mercado, conversei com Donizete Torkaski, representante da União Brasileira de Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio). A troca de ideias trouxe reflexões relevantes sobre o papel estratégico do biodiesel para o desenvolvimento do país e reforçou uma percepção que considero cada vez mais evidente: o biodiesel deixou de ser apenas uma alternativa sustentável e passou a ocupar uma posição central na agenda econômica, industrial e energética do Brasil.
Um potencial que poucos países possuem
O Brasil reúne características únicas no cenário global. Somos uma potência agrícola, líderes na produção de soja e contamos com uma indústria de biocombustíveis consolidada e reconhecida internacionalmente.
Ao mesmo tempo, ainda importamos uma parcela significativa do diesel consumido no país. Em 2025, as importações de diesel A alcançaram um recorde de 17,3 bilhões de litros, crescimento de 20% em relação ao ano anterior. Enquanto isso, seguimos exportando mais de 100 milhões de toneladas de soja em grão, sem a agregação de valor que poderia ocorrer internamente.
Esse paradoxo evidencia uma oportunidade estratégica. Produzir mais biodiesel significa transformar matéria-prima em energia, fortalecer a indústria nacional, reduzir a dependência externa e ampliar a segurança energética do país.
Nesse contexto, a ampliação da mistura obrigatória de biodiesel ao diesel comercializado no Brasil, atualmente em 15% (B15), com meta de chegar a 20% (B20) até 2030, representa mais do que uma medida ambiental. Trata-se de uma política de soberania econômica, capaz de reduzir a exposição do país às oscilações do mercado internacional e estimular investimentos de longo prazo.
Biodiesel: muito além da pauta ambiental
Quando falamos sobre biodiesel, o debate frequentemente se concentra na redução das emissões de gases de efeito estufa. Esse benefício é inegável, mas os impactos positivos vão muito além da questão ambiental.
O fortalecimento dessa cadeia produtiva gera empregos, impulsiona investimentos, amplia a renda no campo e promove o desenvolvimento econômico de diversas regiões do país.
Dados do setor mostram que a cadeia da soja e do biodiesel responde por mais de dois milhões de ocupações e representa uma parcela significativa do PIB do agronegócio brasileiro. Cada usina instalada no interior atua como um polo de desenvolvimento, movimentando a economia local, incentivando a industrialização e criando oportunidades para milhares de famílias.
Trata-se de uma agenda capaz de conectar sustentabilidade e competitividade, algo cada vez mais necessário em um mercado global que valoriza soluções de baixo carbono sem abrir mão da eficiência econômica.
Os impactos que chegam à sociedade
Existe também uma dimensão social que merece destaque.
A transição energética não se resume a moléculas de carbono ou indicadores econômicos. Ela influencia diretamente a qualidade de vida das pessoas.
Estudos apontam que a substituição parcial do diesel fóssil por biodiesel reduz significativamente a emissão de material particulado e de compostos associados à poluição atmosférica. Isso significa menos poluentes no ar e impactos positivos especialmente nos grandes centros urbanos, onde doenças respiratórias representam um importante desafio de saúde pública.
Quando falamos em combustíveis mais limpos, estamos falando também de cidades mais saudáveis, menor pressão sobre os sistemas de saúde e melhores condições de vida para a população.
A sustentabilidade, nesse caso, deixa de ser apenas uma meta ambiental e passa a ser uma estratégia concreta de desenvolvimento humano.
O setor está preparado para avançar
Outro ponto importante é reconhecer que a indústria brasileira fez sua parte.
Nos últimos anos, o setor investiu em tecnologia, ampliou sua capacidade produtiva e desenvolveu competências para atender uma demanda crescente por combustíveis renováveis. Hoje, o Brasil possui uma das indústrias de biodiesel mais modernas e eficientes do mundo.
O próximo passo depende da construção de um ambiente que ofereça previsibilidade regulatória e segurança para novos investimentos. Esses fatores são fundamentais para garantir a continuidade dos avanços e permitir que o país aproveite todo o potencial já disponível.
A transição energética exige inovação, mas exige também estabilidade, planejamento e visão de longo prazo.
O desafio não é encontrar o caminho
O biodiesel representa uma oportunidade rara de alinhar desenvolvimento econômico, inovação, sustentabilidade, segurança energética e geração de valor para o Brasil.
Poucas vezes tivemos diante de nós uma solução capaz de reunir tantos benefícios em uma única cadeia produtiva e, ao mesmo tempo, estar pronta para crescer imediatamente.
A transição energética não é uma discussão sobre o que acontecerá nas próximas décadas.
Ela já está em curso, movimentando a economia, gerando empregos, fortalecendo o agronegócio e ampliando nossa capacidade de produzir energia de forma mais inteligente e responsável.
O desafio agora não é descobrir qual caminho seguir.
O desafio é ter visão e coragem para acelerar essa transformação.
Quer entender melhor os desafios, oportunidades e perspectivas do biodiesel no Brasil?
Assista à entrevista completa com Donizete Torkaski, da Ubrabio, no canal do programa Visão de Mercado no YouTube e acompanhe uma análise aprofundada sobre o futuro da transição energética brasileira.


