DO GRÃO À PROTEÍNA!
O novo mercado que nasce com a industrialização do milho.
Durante muito tempo, quando falávamos sobre milho no Brasil, a discussão estava concentrada em produtividade, safra, preço e exportação. Depois, o avanço do etanol de milho acrescentou uma nova dimensão a essa equação: transformamos o grão também em energia. Agora, acredito que estamos entrando em uma terceira fase e talvez a mais interessante de todas.
O Brasil começa a descobrir quanto valor pode existir dentro de um único grão de milho.
A expansão do etanol de milho criou ao seu redor uma nova cadeia industrial. Além do combustível, surgiram em escala crescente coprodutos como DDG e DDGS, óleo de milho e outros ingredientes destinados à nutrição animal. Paralelamente, tecnologias de processamento, como a floculação do milho, mostram que também existe enorme espaço para aumentar a eficiência na forma como utilizamos esse grão.
Não estamos mais falando apenas de produzir milho. Estamos falando de industrializar, transformar e agregar valor.
Quando eficiência vira negócio
Um dos exemplos que mais me chama atenção é justamente o milho floculado. O processo utiliza vapor em alta temperatura e compressão por rolos para modificar a estrutura do amido do milho, tornando-o mais disponível para digestão. Segundo reportagem da CNN Brasil, com informações do professor Luiz Gustavo Nussio, da Esalq/USP, a digestibilidade do amido pode alcançar entre 90% e 95% com a tecnologia, ante cerca de 80% no milho convencional.
É preciso cautela para não transformar esse tipo de dado em regra universal, porque desempenho nutricional depende de dieta, manejo, processamento, genética e uma série de outras variáveis. Mas a mensagem econômica é inequívoca: quando aumentamos o aproveitamento do alimento, transformamos eficiência nutricional em eficiência financeira.
Se o animal consegue obter mais energia da mesma matéria-prima e melhorar sua conversão alimentar, há potencial para produzir a mesma arroba utilizando menos alimento. E, em um confinamento de milhares de animais, alguns pontos percentuais de eficiência deixam de ser detalhe técnico e passam a representar dinheiro.
“Quando aumentamos o aproveitamento do alimento, transformamos eficiência nutricional em eficiência financeira.”
O etanol de milho está criando muito mais do que combustível
É aqui que essa discussão fica ainda mais interessante. Tenho acompanhado de perto a expansão das plantas de etanol de milho no Brasil. E talvez ainda estejamos subestimando o impacto dessa indústria sobre outras cadeias do agronegócio.
Quando uma tonelada de milho entra em uma biorrefinaria, ela não deveria mais ser enxergada apenas pela quantidade de litros de etanol que pode produzir. Existe valor no etanol. Existe valor no óleo. Existe valor no DDG e no DDGS. Existe valor no carbono. E existe uma cadeia inteira de nutrição animal que pode se desenvolver em torno dessas plantas.
O DDG é um bom exemplo dessa transformação. Com a expansão do etanol de milho, a disponibilidade brasileira desse ingrediente rico em proteína e energia cresce rapidamente. Estimativas apresentadas em evento da União Nacional do Etanol de Milho apontam que a produção brasileira poderá superar 15 milhões de toneladas até 2030.
E esse mercado já ultrapassou nossas fronteiras. Depois da abertura do mercado chinês ao produto brasileiro, a China iniciou as compras em fevereiro de 2026 e, até junho, já havia adquirido 262,1 mil toneladas, tornando-se o principal destino das exportações brasileiras naquele período.3 O Chile também abriu seu mercado para o DDG brasileiro em 2026.
Isso muda a lógica econômica da própria planta de etanol. O coproduto deixa de ser coadjuvante e passa a participar diretamente da rentabilidade do negócio.
E há outro mercado gigantesco esperando
Quando pensamos em nutrição animal, nossa cabeça normalmente vai direto para bovinos, aves e suínos. Mas há outra avenida que merece atenção: o mercado pet.
O setor pet brasileiro faturou R$ 75,4 bilhões em 2024. Desse total, aproximadamente R$ 40,8 bilhões vieram de alimentos industrializados para animais de estimação, representando mais da metade do mercado.5 Para 2025, as entidades do setor projetaram faturamento próximo de R$ 78 bilhões.
Não estou dizendo que todo coproduto do etanol de milho automaticamente se transforma em ingrediente para pet food. Seria tecnicamente incorreto. Formulação, digestibilidade, palatabilidade, padronização, segurança e regulamentação precisam ser consideradas para cada aplicação.
Mas é exatamente aí que está a oportunidade. Quanto mais sofisticada se torna a indústria brasileira de processamento do milho, maior é a possibilidade de desenvolver ingredientes específicos, padronizados e de maior valor agregado para diferentes segmentos da nutrição animal. O salto econômico está justamente em deixar de pensar apenas em volume e começar a pensar em especialização.
O próximo ciclo do milho brasileiro
Durante décadas, nosso grande mérito foi aumentar a produtividade no campo. Depois, avançamos na segunda safra e transformamos o Brasil em uma potência mundial do milho. Mais recentemente, começamos a transformar esse milho em combustível renovável em escala industrial. Agora precisamos dar o próximo passo: transformar cada molécula possível em valor.
Imagine uma cadeia em que o milho produzido no Centro-Oeste gera etanol para substituir combustível fóssil; óleo para diferentes aplicações industriais; DDG e DDGS para nutrição animal; ingredientes cada vez mais especializados; proteína animal; energia; empregos; exportações e desenvolvimento regional. Isso é muito maior do que uma nova indústria de etanol. É uma plataforma de bioeconomia.
E o milho floculado ajuda a ilustrar a mesma mudança de mentalidade. Em vez de perguntar apenas quanto custa uma tonelada de milho, começamos a perguntar: quanto resultado consigo produzir com essa tonelada? Essa pergunta vale para o pecuarista, para a indústria de ração, para a usina de etanol e para o investidor.
O Brasil precisa parar de exportar apenas volume e começar a exportar inteligência
Temos terra, produtividade agrícola, escala, tecnologia, uma pecuária gigantesca e uma indústria de biocombustíveis que poucos países conseguiram construir. O que falta agora é integrar essas competências.
Vejo oportunidades para novas plantas de processamento, unidades de floculação, fábricas de ração próximas às biorrefinarias, desenvolvimento de ingredientes especializados, novas tecnologias de separação e concentração de proteínas e projetos integrando produção agrícola, energia e proteína animal. E isso também significa investimento em automação, controle de processos, eficiência energética, logística e inteligência industrial.
A próxima fronteira do agronegócio brasileiro talvez não esteja simplesmente em plantar mais hectares. Ela está em gerar mais valor dentro dos hectares que já plantamos.
O milho pode sair do campo como commodity. Mas não precisa continuar commodity durante toda a cadeia. Pode virar energia. Pode virar ingrediente. Pode virar proteína. Pode virar tecnologia. Pode virar exportação de maior valor agregado.
E essa talvez seja uma das maiores oportunidades que a expansão do etanol de milho está colocando diante do Brasil. O futuro não será de quem simplesmente produzir mais milho. Será de quem souber extrair mais valor de cada grão.
Referências
1. CNN Brasil — “Milho floculado ganha espaço na pecuária e aumenta eficiência”. Declarações do prof. Luiz Gustavo Nussio (Esalq/USP). cnnbrasil.com.br/agro/milho-floculado-ganha-espaco-na-pecuaria-e-aumenta-eficiencia-na-pecuaria
2. CNN Brasil — “Produção de DDG deve superar 15 milhões de toneladas até 2030”. União Nacional do Etanol de Milho (UNEM). cnnbrasil.com.br/agro/producao-de-ddg-deve-superar-15-milhoes-de-toneladas-ate-2030
3. CNN Brasil — “China amplia compras e se torna principal destino do DDG brasileiro” (262,1 mil toneladas entre fevereiro e junho de 2026). cnnbrasil.com.br/agro/china-amplia-compras-e-se-torna-principal-destino-do-ddg-brasileiro
4. CNN Brasil — “Brasil conclui negociação e abre exportação de DDG para o Chile” (2026). cnnbrasil.com.br/agro/brasil-conclui-negociacao-e-abre-exportacao-de-ddg-para-o-chile
5. Abinpet — Setor pet faturou R$ 75,4 bilhões em 2024, com destaque para alimentos industrializados. petconectadigital.com.br/noticias/setor-pet-faturou-r-75-4-bilhoes-em-2024
6. Ministério da Agricultura e Pecuária — Câmara Setorial de Animais de Estimação. Projeção de faturamento próximo a R$ 78 bilhões para o setor pet em 2025. gov.br/agricultura — release-projecao1tri25-setor-pet.pdf


