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Glicerina: a externalidade positiva de quase um bilhão de dólares que o Brasil precisa aprender a enxergar

Agata Turini · 4 set 2026 · 5 min de leitura
Glicerina: a externalidade positiva de quase um bilhão de dólares que o Brasil precisa aprender a enxergar
Artigos · Turini

O debate público sobre biodiesel ainda está muito concentrado na bomba de combustível. Discute-se percentual de mistura, preço do diesel e a velha tese de que o biocombustível encarece o litro.

Enquanto isso, uma segunda camada dessa cadeia, muito menos conhecida pela sociedade, movimenta centenas de milhões de dólares por ano, coloca o Brasil no radar de mais de 70 países e está presente na pasta de dente, nos cosméticos e até na cola do MDF dos nossos móveis.

Essa camada tem nome: glicerina.

Defendo há tempos uma tese direta: o agronegócio brasileiro não é só grão. É indústria, química renovável, energia e engenharia. E a glicerina talvez seja um dos exemplos mais claros dessa transformação.

Levei esse tema ao Visão de Mercado, em uma conversa com João Artur Manjabosco, ex-executivo do Grupo Camera e do grupo alemão Peter Cremer. A discussão reforçou algo que os dados já mostram: temos diante de nós uma enorme oportunidade de agregação de valor.

De rejeito queimado em caldeira a produto de exportação

Há cerca de vinte anos, a glicerina era praticamente um problema para a indústria. Em muitos casos, era queimada em caldeiras porque simplesmente não havia mercado suficiente para absorvê-la.

O cenário mudou com o crescimento da produção de biodiesel. No processo de transesterificação, gordura animal ou vegetal é combinada com álcool para produzir biodiesel e, inevitavelmente, cerca de 10% de glicerina.

Com o avanço do programa brasileiro de biodiesel, esse coproduto passou a existir em escala. O Brasil, que durante anos importou glicerina para diferentes aplicações industriais, passou a ocupar uma posição relevante como exportador.

Em 2025, foram 821,6 mil toneladas embarcadas para 76 países, o terceiro recorde consecutivo e um volume oito vezes superior ao registrado há 15 anos. O faturamento ficou próximo de meio bilhão de dólares FOB.

Em 2026, o dado chama ainda mais atenção. No primeiro semestre, o volume exportado aumentou 8%, enquanto o faturamento cresceu 80% na comparação com o mesmo período do ano anterior.

A leitura é bastante clara: o mercado internacional está pagando cada vez mais por um insumo que, duas décadas atrás, queimávamos dentro das próprias usinas.

É por isso que o setor utiliza uma expressão que considero precisa: a glicerina é uma externalidade positiva do biodiesel.

Quanto mais biodiesel produzimos, mais oportunidades surgem em torno de uma mesma matéria-prima. Sem novo hectare e sem a necessidade de construir uma cadeia produtiva do zero.

Loira e refinada: duas glicerinas, dois mercados

Existem dois grandes caminhos para a glicerina, e a diferença entre eles ajuda a entender o tamanho da oportunidade que temos pela frente.

A glicerina bruta, também chamada de loira, sai diretamente da produção do biodiesel. Possui cerca de 80% de concentração de glicerol e ainda contém água, sal e matéria graxa.

Entre suas aplicações está a nutrição animal. O MAPA permite sua incorporação em determinadas proporções na alimentação, aproveitando inclusive seu caráter energético e levemente adocicado.

Já a glicerina refinada passa por processos de remoção de água e impurezas, alcançando maior concentração de glicerol e podendo atender mercados muito mais sofisticados.

Ela está presente em cosméticos, medicamentos, produtos de higiene, umectantes, resinas e inúmeras outras aplicações. São milhares de possibilidades industriais.

A diferença entre exportar a glicerina bruta e a refinada não é apenas técnica. É estratégica.

Quando vendemos principalmente o produto bruto, ficamos muito mais expostos à concentração de compradores. Quando avançamos no refino, ampliamos mercados, aplicações e nossa capacidade de negociação.

Depois de anos marcados por pandemia, conflitos e reorganização das cadeias globais, reduzir dependências deveria ser uma prioridade industrial.

O elo com o MDF, a tinta e a resina epóxi

Um dos usos mais interessantes da glicerina está na produção de epicloridrina, matéria-prima utilizada na fabricação de resinas epóxi.

E a resina epóxi está muito mais perto do nosso cotidiano do que parece. Está em tintas, revestimentos industriais e também em componentes utilizados na fabricação de MDF.

Historicamente, essa cadeia esteve bastante ligada a derivados do petróleo. A possibilidade de produzir esses insumos a partir da glicerina renovável muda completamente a lógica.

Por isso, empresas internacionais começam a observar o Brasil não apenas como produtor de biocombustíveis, mas também como possível fornecedor de matérias-primas para a química renovável.

E aqui surge uma pergunta que considero inevitável: por que exportamos glicerina para que ela retorne ao país, meses depois, transformada em resina, cola ou outro insumo industrial de maior valor?

Temos matéria-prima, tecnologia agrícola, indústria e conhecimento. Permanecer apenas na etapa inicial dessa cadeia também é uma escolha.

O ciclo perfeito da biorrefinaria

O conceito de biorrefinaria integrada mostra com clareza o potencial desse modelo.

Pense em um grande frigorífico. A empresa compra o gado, comercializa a carne e pode aproveitar resíduos e o sebo bovino como matéria-prima para a produção de biodiesel.

Em 2025, o sebo bovino foi a segunda matéria-prima mais utilizada na produção brasileira de biodiesel, com 672 mil m³ consumidos, o maior volume desde 2019.

Da produção de biodiesel surge a glicerina, que pode voltar para diferentes cadeias industriais e, em algumas aplicações, até mesmo para a nutrição animal.

O mesmo raciocínio vale para o óleo de cozinha usado. Um resíduo que antes poderia contaminar o meio ambiente passa a ser recolhido, tratado e transformado em combustível.

É esse tipo de integração que muda a forma como precisamos enxergar o biodiesel.

Ele deixa de ser apenas uma molécula carburante e passa a funcionar como âncora para uma cadeia de industrialização.

Mais biodiesel significa maior processamento de matérias-primas, geração de farelo, lecitina, glicerina, ácidos graxos e diferentes produtos com potencial industrial.

Isso representa emprego, fábrica, engenharia, logística, investimento e arrecadação. Em um país que ainda exporta muita commodity e industrializa menos do que poderia, essa discussão é essencialmente sobre competitividade.

Os gargalos que travam a próxima escala

Se a oportunidade é tão evidente, por que ainda não avançamos mais?

Vejo três gargalos que precisam ocupar um espaço maior na agenda pública e empresarial.

O primeiro é tributário. A competitividade do biodiesel e de seus derivados passa diretamente pela estrutura de impostos e pelos efeitos que a reforma tributária poderá produzir sobre essa cadeia.

O segundo é comercial e diplomático. Enquanto alguns concorrentes possuem condições tarifárias privilegiadas em mercados estratégicos, o produto brasileiro ainda enfrenta barreiras que reduzem nossa competitividade.

O terceiro é logístico e industrial. Armazenagem portuária, infraestrutura ferroviária, transporte e capacidade de processamento ainda limitam nossa expansão.

Mas existe também uma provocação para o setor privado.

A indústria química brasileira precisa olhar para a glicerina refinada não como um coproduto periférico do biodiesel, mas como uma plataforma de negócios de longo prazo.

Temos a oportunidade de encurtar cadeias, verticalizar parte dessa produção e desenvolver, dentro do Brasil, um parque de derivados químicos renováveis.

O que o Brasil precisa decidir

O Brasil ainda importa uma parcela relevante do diesel que consome. Ao mesmo tempo, temos dezenas de usinas de biodiesel distribuídas pelo país, capacidade produtiva instalada, matéria-prima e conhecimento técnico.

Outros países estão avançando rapidamente na incorporação de biocombustíveis em suas matrizes energéticas. A Indonésia, por exemplo, avançou para o B50 em 2026.

A pergunta central, portanto, deixou de ser se o biodiesel funciona.

A discussão agora precisa ser sobre velocidade e ambição.

Que posição o Brasil pretende ocupar na transição energética industrial?

Queremos continuar exportando soja, óleos e coprodutos para importar produtos químicos mais caros ou queremos participar também da etapa em que conhecimento, tecnologia e indústria multiplicam o valor da matéria-prima?

Essa escolha envolve química renovável, combustível sustentável de aviação, biobunker marítimo, novos ingredientes industriais e uma série de mercados que ainda estão em formação.

Não é uma discussão ideológica. É uma decisão de posicionamento competitivo.

O papel da comunicação e o trabalho da UBRABIO

Há ainda uma dimensão que não podemos ignorar: comunicação.

O biodiesel é parte da história da inovação brasileira. A primeira patente do combustível foi registrada no país pelo professor Expedito Parente.

Temos conhecimento, pesquisa, indústria e uma trajetória que precisa ser melhor conhecida pela própria sociedade.

É nesse processo que entidades como a UBRABIO exercem um papel importante, aproximando cadeia produtiva, governo, parlamento, academia e sociedade.

Ao longo dos últimos anos, esse trabalho ajudou a sustentar discussões sobre aumento da mistura, testes técnicos, segurança dos motores, desenvolvimento do setor e políticas públicas.

O próximo capítulo precisa incluir com mais força as externalidades positivas dessa cadeia.

Glicerina, emprego, agricultura familiar, segurança energética, processamento industrial e novos produtos precisam fazer parte da mesma conversa.

Porque, enquanto quem conhece o setor não conseguir traduzir sua relevância para a sociedade, continuaremos discutindo apenas o preço na bomba quando poderíamos estar debatendo um projeto muito maior de desenvolvimento industrial.

Por isso continuo insistindo, em entrevistas, painéis e artigos: o agronegócio brasileiro não é só grão.

É indústria. É energia. É química renovável. É engenharia.

A glicerina mostra que, quando o Brasil transforma sua matéria-prima, existem mercados dispostos a comprar.

Temos capacidade para avançar nessa cadeia.

Falta decidir.

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Fontes e referências:

• João Artur Manjabosco — entrevista concedida ao programa Visão de Mercado, Jovem Pan News Ribeirão Preto, em 24/08/2026.

• Comex Stat — MDIC/Secex — dados oficiais de exportação brasileira de glicerina.

• BiodieselBR — “Brasil renova recorde de exportação de glicerina”, janeiro de 2026.

• AgFeed — “ADM vai além do biodiesel e já tem planos de expansão com foco na glicerina”, março de 2026.

• EPE — Análise de Conjuntura dos Biocombustíveis e dados sobre capacidade instalada e produção de biodiesel no Brasil.

• ANP — Painel Dinâmico de Produtores de Biodiesel e informações sobre a cadeia brasileira de biodiesel.

• Ministério de Minas e Energia — Relatório Anual RenovaBio 2025.

• SCA Brasil — dados de produção de biodiesel e utilização de sebo bovino em 2025.

• Embrapa — estudos sobre glicerina proveniente da produção de biodiesel e seu potencial de utilização na alimentação animal.

• Reuters — dados sobre a adoção do B50 pela Indonésia em 2026.

• USDA/FAS — Biofuels Annual Brazil 2025 e Biofuels Annual Argentina 2025.

• UBRABIO — informações institucionais, Biodiesel Week e referências sobre o desenvolvimento da cadeia de biodiesel e bioquerosene no Brasil.

• Lei nº 14.993/2024 — Lei do Combustível do Futuro.

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