Bioenergia: o Brasil já tem as respostas. O que ainda falta é agir!
A transição energética deixou de ser um tema do futuro. Ela já influencia decisões de investimento, políticas públicas, competitividade industrial e o posicionamento das economias mais relevantes do mundo.
No entanto, ainda percebo que parte desse debate acontece de forma superficial. Muitas vezes, a conversa fica restrita à sustentabilidade, quando, na verdade, estamos diante de uma profunda transformação econômica e industrial.
No programa Visão de Mercado, conversei com Paulo Montabone sobre os caminhos da bioenergia e saí da entrevista com uma convicção ainda mais forte: o Brasil reúne condições para liderar essa nova economia, mas liderança não se constrói apenas com potencial.
Temos uma combinação rara de recursos naturais, conhecimento técnico, capacidade agrícola e experiência consolidada em biocombustíveis. Poucos países conseguem reunir biomassa, tecnologia, escala produtiva e uma matriz energética tão favorável quanto a nossa.
Ainda assim, seguimos avançando em um ritmo inferior ao que poderíamos.
Enquanto outras economias transformam inovação em política de Estado, fortalecem suas cadeias produtivas e criam ambientes favoráveis para investimentos de longo prazo, o Brasil ainda enfrenta insegurança regulatória, elevada complexidade tributária e dificuldades para dar continuidade a projetos estratégicos.
Esse talvez seja o maior desafio da nossa transição energética: ela depende menos da tecnologia disponível e mais da capacidade de coordenação entre governo, indústria, produtores e investidores.
Outro ponto que considero essencial é abandonar a ideia de que existe uma única solução para a descarbonização.
A bioenergia é construída pela complementaridade. Etanol, biodiesel, biogás, biometano, SAF, hidrogênio verde, energia solar e eólica não competem entre si. Cada tecnologia atende a necessidades específicas e todas contribuem para tornar a matriz energética mais eficiente, segura e sustentável.
Quando insistimos em colocar essas soluções em lados opostos, desperdiçamos oportunidades de acelerar a inovação e ampliar nossa competitividade.
Essa mesma lógica vale para a evolução das usinas.
O conceito de biorrefinaria mostra que o futuro do setor está na integração. A biomassa deixa de ser matéria-prima para um único produto e passa a gerar energia, combustíveis, insumos industriais e novas fontes de receita. É uma transformação que aumenta eficiência, reduz desperdícios e cria operações muito mais resilientes.
Mas nenhuma inovação se sustenta apenas pelo seu valor ambiental.
Mercados evoluem quando tecnologia, competitividade e viabilidade econômica caminham juntas. A transição energética precisa fechar a conta para quem produz, para quem investe e para quem consome. Sem isso, qualquer avanço tende a acontecer em velocidade muito inferior ao necessário.
Também acredito que o crescimento do etanol de milho ilustra bem como a concorrência pode ser positiva.
Quando diferentes modelos produtivos coexistem, todo o setor é estimulado a investir mais em eficiência, inovação e produtividade. O debate estratégico não deveria ser escolher entre cana ou milho, mas compreender como diferentes rotas podem fortalecer o protagonismo brasileiro na bioenergia.
Da mesma forma, soluções como SAF, biogás e biometano deixam claro que ainda existe um enorme espaço para inovação, principalmente em segmentos onde a descarbonização é mais complexa, como a aviação, o transporte pesado e a navegação.
São mercados que exigirão cada vez mais tecnologia, integração industrial e visão de longo prazo.
No fim, a principal reflexão é simples.
O Brasil não sofre pela falta de recursos. Temos conhecimento, capacidade produtiva, experiência e condições naturais que poucos países possuem.
O que ainda precisamos construir é um ambiente que transforme essas vantagens em liderança efetiva.
A transição energética não será vencida apenas por quem desenvolver boas tecnologias, mas por quem conseguir criar um ecossistema capaz de transformar inovação em escala, competitividade e crescimento sustentável.
É essa visão que pode posicionar o Brasil não apenas como participante, mas como protagonista da nova economia da energia.


