A Reforma Tributária e o Agronegócio
Como empresária e atuando fortemente no setor de automação industrial para usinas, vejo diariamente os desafios que o agronegócio enfrenta. Entre clima imprevisível, safras desafiadoras e a necessidade constante de inovação, muitas vezes deixamos o urgenteomar conta e negligenciamos o que parece ser “apenas coisa de contador”.
Mas a Reforma Tributária que se aproxima não é apenas uma mudança de alíquota. É uma transformação estrutural que pode impactar diretamente a sobrevivência do seu negócio.
Recentemente, no programa Visão de Mercado, tive a oportunidade de aprofundar esse tema com Luiz Felipe Baggio, sócio da Evo Inc. e especialista em estruturação tributária no agronegócio. A conversa me trouxe reflexões urgentes que compartilho aqui com vocês.
O Impacto Real: Além da Alíquota
A transição para o modelo de IVA (Imposto sobre Valor Agregado), unificando PIS, COFINS, ICMS, IPI e ISS em IBS e CBS, traz uma mudança drástica na dinâmica de caixa.
Segundo Baggio, se o produtor rural ou empresário estiver alavancado e não possuir uma projeção financeira de médio e longo prazo, o impacto pode aumentar a carga tributária em até 50% a 60%.
Mais alarmante ainda é a mudança no fluxo de caixa. Atualmente, muitos operam com o “float” tributário, o caixa temporário gerado pelo tributo que ainda não foi pago. Com a implementação do split payment (pagamento dividido), a receita chegará líquida de tributos. O governo recebe primeiro.
“O produtor rural não vai poder mais se apoiar naquele caixa temporário que o tributo não pago provê. Ele vai ter que tirar do fluxo o dinheiro que hoje ele segura e paga o governo depois.” — Luiz Felipe Baggio
A Armadilha dos Créditos Tributários
Outro ponto crítico é a apropriação de créditos. No novo cenário, o direito ao crédito tributário estará condicionado não apenas à escrituração da nota, mas à efetiva liquidação financeira do fornecedor.
Isso coloca o empresário em uma encruzilhada financeira complexa: antecipar o pagamento ao governo ou antecipar o fornecedor, operando com menos liquidez em um cenário onde o capital de giro já é pressionado.
Como se Preparar? O Diagnóstico é Urgente
A inércia pode custar caro. Na minha própria empresa, a implantação de um sistema ERP robusto (SAP) foi fundamental para acompanhar a complexidade das operações. Sem essa organização, estaríamos perdidos diante do nível de mudanças que o mercado exige.
Estar bem preparado significa:
Organizar o fluxo de caixa: Entender a nova dinâmica sem o “float” tributário.
Revisar o endividamento: Limpar passivos que podem asfixiar a operação.
Realizar um diagnóstico de créditos: Levantar os créditos tributários dos últimos cinco anos.
Este último ponto é vital. Em 2027, tributos como PIS e COFINS deixarão de existir. Se você não entrar com esses saldos iniciais de crédito tributário, estará literalmente deixando na mesa um dinheiro que não poderá ser recuperado.
A adaptação será via fórceps, assim como foi a implantação do SPED e do eSocial. No entanto, desta vez, as mudanças não são apenas formais; elas são financeiramente impactantes.
A pergunta que fica é: você já calculou o impacto real dessa reforma no seu negócio, ou vai esperar 2027 bater à porta?
Vamos debater: como a sua empresa está se preparando para essa transição?
Ágata Turini é apresentadora do Visão de Mercado e atua no setor de automação industrial, com forte presença no agronegócio e bioenergia.


