Agronegócio bate recorde de empregos, mas juros altos e dívidas rurais ameaçam o crescimento
Com 28,4 milhões de trabalhadores e salários acima da inflação, o setor mostra força — mas recuperações judiciais e o Custo Brasil revelam os limites do modelo atual
O agronegócio brasileiro acaba de entregar um número histórico: são 28,4 milhões de trabalhadores formais e informais empregados pelo setor no segundo trimestre de 2026, segundo dados do Portal CNA Brasil. É o maior contingente já registrado. O salário médio chegou a R$ 2.972 por mês — alta real de 3,7% acima da inflação. Na superfície, o retrato é de força. Mas quando você olha com mais atenção, aparecem fissuras que nenhum recorde de emprego consegue esconder.
O que os números revelam — e o que escondem
Crescer em geração de empregos é um sinal positivo inegável. Significa que a cadeia do agro — da porteira para fora, passando por transporte, indústria, comércio e serviços — continua sendo o maior motor de trabalho do país. Mas volume de emprego não é sinônimo de saúde financeira do setor.
Ao mesmo tempo em que o mercado de trabalho batia recorde, o Banco do Brasil anunciou que a renegociação de dívidas rurais está começando a ganhar tração — o que, em bom português, significa que muitos produtores chegaram ao limite do que conseguem pagar. E Goiás, um dos estados mais relevantes do agro nacional, concentra sozinho quase 19% dos pedidos de recuperação judicial do setor em todo o Brasil. Produzir muito, empregar muito e mesmo assim não conseguir honrar dívidas: esse é o paradoxo que o agronegócio brasileiro precisa enfrentar com maturidade.
Juros, clima e Custo Brasil: a tríade que corrói a margem
Não é por acaso que o setor foi à InfoMoney e a outros veículos pedir políticas mais perenes para enfrentar três inimigos conhecidos: juros altos, instabilidade climática e o chamado Custo Brasil — esse conjunto de gargalos em infraestrutura, tributação e burocracia que faz com que produzir aqui custe mais do que deveria.
A taxa de juros elevada pressiona diretamente o crédito rural. Quando o produtor contrata financiamento para plantar e os preços das commodities oscilam — como aconteceu em 2024 e 2025 com soja e milho — a conta fecha no vermelho. O resultado aparece meses depois nas estatísticas de inadimplência e recuperação judicial.
O clima virou variável financeira de primeiro nível. Secas prolongadas e chuvas fora de época não são mais exceções — são parte do calendário de risco que qualquer gestor rural precisa precificar. E sem políticas climáticas estruturantes de longo prazo, o produtor fica refém de uma roleta que ele não controla.
Fertilizantes: o calcanhar de Aquiles da soberania agrícola
Uma das manchetes desta semana que merece atenção redobrada é discreta, mas poderosa: o Brasil importa 85% dos fertilizantes que usa na agricultura. Em um cenário geopolítico instável — com conflitos que afetam rotas de fornecimento e países produtores como Rússia, Belarus e China sujeitos a sanções ou restrições —, essa dependência é uma bomba-relógio para o custo de produção.
Quando o preço do fertilizante sobe lá fora, o custo de plantio sobe aqui dentro. E quando o custo sobe sem que o preço da soja ou do milho acompanhe, a margem do produtor desaparece. Esse é um dos pontos centrais que o agronegócio precisa resolver — e que ainda não tem política pública consistente o suficiente para endereçar.
O Brasil vai à SIAL Paris: exportação como válvula de escape
Do lado positivo, o Brasil aposta na SIAL Paris — uma das maiores feiras de alimentos do mundo — para ampliar exportações e projeta US$ 3,5 bilhões em negócios. A presença brasileira em feiras internacionais reforça o posicionamento do país como fornecedor global de alimentos, especialmente em um momento em que a segurança alimentar virou pauta geopolítica prioritária na Europa e na Ásia.
Exportar com mais valor agregado — e não apenas grão a granel — é o caminho que o setor busca para melhorar a equação de rentabilidade. Mas isso exige investimento em processamento, logística, rastreabilidade e acesso a crédito — justamente os pontos que o Custo Brasil torna mais caros e difíceis.
COP 31 e sustentabilidade: oportunidade ou pressão?
O agronegócio brasileiro também se movimenta para definir suas prioridades na COP 31, que acontece na Turquia. A pauta climática não é apenas diplomática — ela tem impacto direto no acesso a mercados. Importadores europeus, por exemplo, exigem cada vez mais rastreabilidade e comprovação de práticas sustentáveis. Quem não se adaptar vai encontrar portas fechadas, independentemente do preço que oferecer.
A agricultura sustentável, portanto, não é mais uma questão de posicionamento de marca. É uma questão de acesso a mercado. E quem entender isso primeiro vai sair na frente.
O que o produtor e o empresário do agro precisam observar
Diante desse cenário, alguns pontos merecem atenção imediata para quem toma decisão no setor:
1. Gestão de dívida vem antes de expansão. O movimento do Banco do Brasil de facilitar renegociações é uma janela — mas ela não fica aberta para sempre. Quem tem dívida rural precisa sentar com o banco agora, antes que os termos piorem.
2. Custo de produção precisa ser monitorado semana a semana. Com fertilizantes importados e câmbio volátil, o custo pode mudar rapidamente. Planejar a safra com base no preço de hoje é um erro clássico que custa caro.
3. Sustentabilidade é estratégia de acesso a mercado. Se você exporta ou quer exportar, a agenda ESG não é opcional. É o passaporte para o mercado europeu e asiático.
4. Políticas de longo prazo importam. O setor está certo em pedir mais estabilidade regulatória. Mas enquanto ela não vem, quem sobrevive melhor é quem tem a gestão mais sólida — independentemente do cenário externo.
Produzir mais não é o mesmo que lucrar mais
O agronegócio brasileiro é extraordinário em volume. Bate recordes de produção, de empregos, de exportação. Mas ainda patina quando o assunto é transformar esse volume em rentabilidade sustentável para o maior número possível de produtores. A diferença entre os dois está, cada vez mais, na gestão — da propriedade, da dívida, do clima, dos custos e do acesso a mercados. Esse é o desafio que os números de hoje revelam. E é exatamente o que o agro brasileiro precisa aprender a resolver na próxima década.


