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Agronegócio cresce 12% e bate recordes, mas recuperações judiciais revelam o lado frágil do setor

O Brasil está mais rico no campo, mas nem todas as empresas do agro estão colhendo esse resultado — e entender por que isso acontece é o que separa quem vai prosperar de quem vai quebrar

Agata Turini · 23 set 2026 · 6 min de leitura
Agronegócio cresce 12% e bate recordes, mas recuperações judiciais revelam o lado frágil do setor
Agronegocio · Turini

O Brasil encerrou 2025 com um número que qualquer país agrícola invejaria: o PIB do agronegócio cresceu 12%, segundo dados do Cepea/Esalq-USP. Em agosto deste ano, só as exportações do setor movimentaram US$ 15,1 bilhões, distribuídos em mais de 1,4 mil municípios brasileiros. O país caminha para superar os Estados Unidos e se tornar o maior exportador agrícola do mundo.

São números que fazem manchete. Que aparecem em discursos políticos, em projeções de bancos e em relatórios de investidores. Mas existe uma outra estatística, incômoda e silenciosa, que também cresceu no mesmo período: o número de recuperações judiciais no agronegócio brasileiro.

A pergunta que o Estadão trouxe esta semana é precisa e necessária: por que um setor tão próspero vive uma escalada de pedidos de recuperação judicial? A resposta não está na lavoura. Está na gestão.

O paradoxo que o agro precisa encarar

Produzir mais não significa lucrar mais. Essa é uma das lições mais duras — e mais ignoradas — do campo brasileiro. Um produtor que expandiu área, aumentou produção e bateu recorde de colheita pode, ao mesmo tempo, estar afogado em dívidas que não consegue pagar.

Como isso é possível? Porque o crescimento do volume não veio acompanhado, em muitos casos, de crescimento na gestão financeira. Nos anos de crédito farto, juros mais baixos e preços de commodities favoráveis, empresas e produtores se alavancaram além do razoável. Compraram terra, máquinas, insumos e estrutura acreditando que o mercado manteria o ritmo.

Quando os preços da soja e do milho recuaram, quando o câmbio oscilou, quando os custos de insumos — ainda pressionados pela cadeia global — não cederam na mesma proporção, a conta não fechou mais. E o resultado aparece nos tribunais.

Quem está sendo mais atingido

O perfil das recuperações judiciais no agro não é uniforme. Produtores de médio porte, tradings regionais, empresas de insumos e cooperativas menores estão entre os mais vulneráveis. São operações que cresceram rápido demais, com estrutura financeira que não acompanhou a escala.

Grandes exportadoras e empresas capitalizadas — com acesso a hedge cambial, contratos de longo prazo e gestão profissional — seguem colhendo os benefícios do agro forte. A diferença entre elas e quem pede recuperação judicial raramente está no tamanho da fazenda. Está na qualidade da gestão de risco, do fluxo de caixa e da estratégia financeira.

O desafio não está apenas na lavoura. Está na mesa de decisão.

O que os números escondem

Quando o PIB do agronegócio cresce 12%, esse número é uma média. Uma média que inclui os que foram muito bem e os que quebraram. Inclui o algodão do Mato Grosso que desbancou cidades tradicionais no ranking do agro nacional, inclui as exportações recordes de agosto — e também inclui empresas que não conseguirão pagar suas dívidas neste ano.

Médias são perigosas porque confortam. Fazem parecer que o setor inteiro está bem quando, na realidade, há uma concentração crescente de resultado em produtores e empresas com gestão profissional, acesso a tecnologia e inteligência de mercado.

Os outros — que produzem no achismo, vendem sem estratégia, tomam crédito sem planejamento — ficam para trás, mesmo num ano de PIB recorde.

Angola, regenerativo e aviação agrícola: o agro que vai além

Enquanto parte do setor enfrenta a crise silenciosa das recuperações judiciais, outra parte está abrindo novas fronteiras. Angola foi apontada esta semana como um novo destino da expansão do agronegócio brasileiro. Produtores e empresas do setor estão exportando não apenas commodities, mas tecnologia, modelo de gestão e know-how agrícola para o continente africano.

No campo das práticas, 14 mil produtores assinaram um manifesto pedindo a expansão da agricultura regenerativa no Brasil — um sinal de que parte do setor quer crescer com sustentabilidade como estratégia de diferenciação e acesso a mercados exigentes. Aviação agrícola e sistemas antigranizo também entram como ferramentas de proteção de renda, reduzindo perdas em eventos climáticos extremos.

São movimentos que mostram um agro em transformação — mais técnico, mais consciente do risco, mais conectado ao mercado global.

O que o produtor e o empresário do agro precisam observar agora

O cenário atual do agronegócio brasileiro exige uma leitura dupla. De um lado, há oportunidades reais: mercado externo aquecido, Brasil ganhando protagonismo global, novas tecnologias aumentando produtividade e reduzindo perdas. Do outro, há armadilhas: endividamento mal planejado, alavancagem excessiva, falta de proteção contra variação de preço e câmbio.

Alguns pontos que merecem atenção imediata:

  • Gestão de caixa é prioridade: crescimento de receita sem controle de despesa é caminho para recuperação judicial, independentemente do tamanho da operação.
  • Hedge não é especulação: travar preço e câmbio é proteção de margem, não aposta. Quem não faz isso vira refém do mercado.
  • Crédito rural tem custo: os anos de Plano Safra generoso ensinaram maus hábitos. Crédito subsidiado não é lucro garantido — é dívida que precisa ser paga com resultado real.
  • Diversificação de mercado: Angola e outros mercados emergentes representam oportunidades concretas para quem tem produto e capacidade de exportar diretamente ou via parceiros.
  • Sustentabilidade como estratégia: o manifesto dos 14 mil produtores por agricultura regenerativa não é só pauta ambiental. É acesso a mercados premium, financiamento verde e redução de custo de insumos no médio prazo.

Volume sem estratégia pressiona margens — e derruba empresas

O agronegócio brasileiro nunca foi tão grande. E nunca exigiu tanto de quem quer fazer parte dele com resultado sustentável. O Brasil pode se tornar o maior exportador agrícola do mundo — e provavelmente vai. Mas esse título não protege automaticamente nenhum produtor, nenhuma trading, nenhuma cooperativa.

A diferença está cada vez mais na gestão. Na capacidade de transformar volume em margem, crescimento em liquidez, oportunidade em resultado real. Quem não entender isso pode colher recorde na lavoura e ainda assim terminar o ano na fila do tribunal.

O agro está em alta. A pergunta que cada empresário do setor precisa se fazer é: a minha empresa também está?

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