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Agro brasileiro bate recorde de exportações mas ainda depende do exterior para plantar

O Brasil alimenta o mundo, movimenta R$ 3,13 trilhões em 2026 e expande parcerias com a África — mas a dependência de fertilizantes importados e a inadimplência crescente revelam a crise invisível que ameaça a sustentação desse desempenho

Agata Turini · 8 set 2026 · 5 min de leitura
Agro brasileiro bate recorde de exportações mas ainda depende do exterior para plantar
Agronegocio · Turini

O agronegócio brasileiro chegou ao segundo semestre de 2026 com um número que impressiona qualquer analista: R$ 3,13 trilhões em valor bruto de produção, segundo projeção do Cepea/Esalq. Em agosto, as exportações do setor dispararam 11,4% em relação ao mesmo período do ano anterior. A soja com comercialização já em 88,7% da safra, tensões geopolíticas que não conseguiram travar o fluxo de grãos e carnes para o mundo, e Angola batendo à porta pedindo parceria agrícola: o retrato parece perfeito.

Mas existe uma fissura que os números grandes escondem. E ignorá-la pode ser caro.

O que está indo bem — e por quê isso importa

As exportações agro em alta de 11,4% em agosto são resultado de uma combinação favorável: o real desvalorizado mantém o produto brasileiro competitivo no mercado internacional, a política protecionista de Donald Trump nos Estados Unidos abriu espaço para o Brasil avançar em mercados onde os americanos perderam credibilidade, e a demanda global por proteína animal e grãos segue firme.

A soja em Chicago subiu, acelerou vendas no Brasil e puxou a comercialização para 88,7% da safra — ritmo acima da média histórica para este período. Para o produtor que travou preços no momento certo, o resultado é positivo. Para quem ficou esperando, a pressão de câmbio e custo ainda é um fator de atenção.

Angola representa um movimento novo e estratégico: o país africano pediu formalmente ao Brasil apoio técnico e transferência de tecnologia para reduzir sua dependência de importação de alimentos. Isso abre uma frente de expansão para empresas de insumos, máquinas, consultoria agronômica e até cooperativas brasileiras que querem internacionalizar operações.

A crise que ninguém está vendo nos títulos

Por trás dos recordes, dois sinais de alerta merecem atenção imediata de quem toma decisão no campo ou em empresas do agro.

O primeiro é a inadimplência crescente. Com o crédito rural mais caro, margens apertadas em algumas culturas e custos de produção ainda elevados, uma parcela dos produtores está enfrentando dificuldade para honrar compromissos financeiros. Quando a inadimplência sobe no agro, o efeito cascata atinge revendas de insumos, tradings, cooperativas e bancos que operam no setor.

O segundo é estrutural e mais profundo: o Brasil ainda importa cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza. Produzir mais não significa ter segurança no abastecimento. A dependência de potássio russo, fosfato marroquino e ureia de diversas origens torna o campo brasileiro vulnerável a qualquer ruptura logística ou geopolítica global. Em 2022, a guerra na Ucrânia mostrou o que acontece quando essa cadeia trava. A lição foi aprendida parcialmente.

Cortes no fornecimento de fertilizantes já aparecem nas manchetes desta semana como um desafio concreto para a safra que está sendo planejada. Quem não tem estoque ou contrato firmado está em posição delicada.

O paradoxo do gigante que alimenta o mundo mas depende de fora para plantar

É possível ser o maior exportador de proteína vegetal e animal do planeta e, ao mesmo tempo, depender de insumos importados para manter essa produção. O Brasil vive esse paradoxo há décadas — e o debate sobre soberania produtiva ganhou força nas últimas semanas.

A questão não é simples. Substituir importações de fertilizantes exige investimento pesado em mineração, infraestrutura industrial e tempo. O Brasil tem reservas de fosfato relevantes, mas a capacidade de processamento é limitada. Projetos de fertilizantes nitrogenados a partir do gás natural ou de tecnologias alternativas (como biofertilizantes) existem, mas ainda estão longe de escalar para o tamanho da demanda nacional.

A mensagem para o produtor e para o empresário do agro é direta: diversificar fontes de insumos, trabalhar com estoque estratégico e acompanhar contratos de fornecimento com atenção não é burocracia — é gestão de risco real.

Eleições 2026 e o que o agro espera da política pública

Com o calendário eleitoral se aproximando, o setor começa a organizar sua pauta de reivindicações. As discussões giram em torno de temas que afetam diretamente a rentabilidade: regularidade do crédito rural subsidiado, infraestrutura logística (estradas, ferrovias e portos), marco regulatório para novos defensivos e tecnologias, e políticas de estímulo à produção nacional de insumos estratégicos.

A pergunta que o setor faz aos candidatos é objetiva: qual política pública vai reduzir a vulnerabilidade do agro sem travar sua expansão? A resposta a essa pergunta vai definir qual projeto de agronegócio o Brasil quer construir para a próxima década.

O que observar nos próximos meses

Para produtores, gestores de cooperativas, investidores e empresas do setor, os movimentos a acompanhar de perto são:

  • Cotação dos fertilizantes no mercado internacional — qualquer alta impacta o custo da próxima safra diretamente
  • Comportamento da inadimplência no crédito rural — um indicador antecedente de pressão financeira no campo
  • Evolução da parceria Brasil-Angola — uma oportunidade real de expansão para empresas de tecnologia agro e insumos
  • Ritmo das exportações nos próximos meses — o câmbio favorável tem prazo de validade, e a janela pode se fechar
  • Agenda das eleições para o agro — quais propostas concretas vão além do discurso de campanha

O agro brasileiro nunca foi tão grande. Mas tamanho não é sinônimo de solidez. A diferença entre crescer com resultado e crescer com risco está na gestão — de insumos, de crédito, de mercado e de política. Esse é o desafio real de 2026.

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