Café arábica e conilon em queda: o que os preços de maio de 2026 revelam para o cafeicultor
Com quedas de até 33% em 12 meses, o mercado de café acende o sinal de alerta para rentabilidade, gestão de risco e estratégia de comercialização nas lavouras brasileiras.
Produzir café no Brasil nunca foi tarefa simples. Mas em maio de 2026, o cenário ficou ainda mais desafiador para os cafeicultores: os preços do café arábica e do conilon registraram novas quedas no mercado internacional, aprofundando um movimento de desvalorização que já vinha sendo sentido ao longo dos últimos doze meses.
Segundo dados do relatório Cenário Agro de maio de 2026, publicado pelo IEAG/ABAG, o café arábica recuou 3,2% no mês, chegando a US$ 2,10 por libra-peso. O conilon apresentou queda ainda mais acentuada: 4,1% no mesmo período, atingindo US$ 1,85 por libra-peso. No acumulado de 12 meses, os números são mais impactantes: o arábica acumula perda de 15,4%, enquanto o conilon registra desvalorização de 33,1% — ou seja, perdeu um terço do seu valor em apenas um ano.
O que está por trás da queda?
A pressão sobre os preços do café reflete uma combinação de fatores que o mercado já sinalizava. Em primeiro lugar, o volume da safra brasileira 2025/26 veio expressivo — e quando a oferta cresce com força, o mercado tende a responder com recuo nos preços. O Brasil, como maior produtor mundial de café, tem peso direto na formação das cotações internacionais.
Além disso, fatores externos contribuem para o cenário: a desaceleração do consumo em alguns mercados importadores, a valorização do dólar em determinados períodos e o comportamento dos fundos especulativos na bolsa de commodities de Nova York (ICE) criam oscilações que o produtor, na ponta da cadeia, raramente controla — mas sempre sente no bolso.
Para o conilon, cultivado principalmente no Espírito Santo e no sul da Bahia, a queda acumulada de mais de 33% em um ano é especialmente grave. Trata-se de uma variedade com margens historicamente mais ajustadas e com forte presença em propriedades menores, onde o impacto financeiro de uma desvalorização desta magnitude pode comprometer o fluxo de caixa da safra inteira.
Quem é impactado — e como?
O efeito cascata atinge diferentes elos da cadeia produtiva:
Cafeicultor: é quem sente o impacto direto. Com custos de produção que não caem na mesma velocidade que os preços, a margem de lucro se comprime. Produtores que não fizeram hedge ou trava de preço ficam expostos à volatilidade do mercado spot.
Cooperativas e tradings: enfrentam pressão dos associados e clientes por melhores condições, ao mesmo tempo em que precisam gerenciar estoques em um mercado de preços declinantes.
Financiadores e bancos: projetos de crédito rural baseados em projeções de preço mais elevadas podem apresentar inadimplência crescente se a queda persistir.
Exportadores: margens de câmbio podem amenizar parte da queda para quem opera em dólar, mas a depender do contrato e do momento de fechamento, a proteção pode ser insuficiente.
Volume sem estratégia pressiona as margens
Um dos erros mais comuns entre produtores em ciclos de queda é acreditar que produzir mais resolve o problema. Mas quando os preços caem, aumentar o volume sem gestão de comercialização pode, na prática, aumentar o prejuízo — ou no mínimo, não recuperar a rentabilidade esperada.
A diferença entre cafeicultores que atravessam esses ciclos com saúde financeira e aqueles que acumulam dívidas está, cada vez mais, na gestão: planejamento de venda antecipada, diversificação de variedades, redução de custo por saca e uso de ferramentas de proteção de preço, como contratos a termo e opções no mercado de commodities.
O desafio não está apenas na lavoura. Está na mesa de tomada de decisão.
Qual o risco se a queda continuar?
Se o movimento de desvalorização se estender pelos próximos meses, alguns cenários preocupam:
- Redução de investimentos em novas lavouras e renovação de cafezais velhos;
- Abandono de áreas menos produtivas, especialmente por pequenos produtores;
- Aumento da inadimplência no crédito rural voltado ao café;
- Pressão por renegociação de contratos em cooperativas;
- Migração de áreas para outras culturas, reduzindo a oferta futura — o que, paradoxalmente, pode criar um ciclo de alta nos preços nos anos seguintes.
Esse último ponto merece atenção: ciclos de queda prolongada no café historicamente precedem períodos de recuperação de preço, justamente porque desincentivam a produção. Quem sobrevive ao período de baixa com estrutura e gestão, tende a colher resultados melhores na próxima janela de alta.
O que o cafeicultor e o empresário do agro precisam observar agora
Em um cenário como o atual, alguns pontos de atenção são prioritários:
1. Revisão do custo de produção: saber com precisão o custo por saca é o ponto de partida para qualquer decisão de venda. Sem esse número, qualquer preço parece bom — ou ruim — sem critério real.
2. Calendário de comercialização: vender tudo de uma vez no momento de baixa é um dos maiores erros. Escalonar as vendas ao longo do ano permite capturar momentos de melhora pontual das cotações.
3. Hedge e proteção de preço: o mercado futuro e as opções existem exatamente para este momento. Cooperativas e tradings com estrutura podem auxiliar o produtor a travar parte da produção em condições mais favoráveis.
4. Diferenciação de produto: cafés especiais, rastreados e com certificação de origem tendem a escapar parcialmente da pressão do mercado de commodity. A valorização do produto é uma estratégia de longo prazo, mas precisa começar agora.
5. Acompanhamento do câmbio: a relação dólar/real influencia diretamente a receita em reais do produtor exportador. Mesmo com quedas em dólar, uma desvalorização do real pode atenuar perdas — mas não deve ser a única âncora de planejamento.
Perspectiva de mercado
O mercado de café continua sendo um dos mais voláteis dentro do agronegócio brasileiro. A combinação de fatores climáticos, sazonalidade de safra, comportamento dos fundos especulativos e demanda global torna a previsão de preço uma tarefa complexa até para analistas experientes.
O que se pode afirmar com segurança é que os produtores que chegam a esses momentos de baixa com menor endividamento, melhor gestão e produto mais valorizado saem na frente — não apenas para sobreviver ao ciclo atual, mas para aproveitar a recuperação que, historicamente, sempre vem.
No agro, produzir mais não significa lucrar mais. Especialmente quando o mercado decide que o preço vai cair.


