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Café, Milho e Açúcar: O Que a Queda das Commodities Significa para o Produtor Brasileiro em 2025

Com café arábica caindo 15,4% em 12 meses e robusta recuando 33,1%, o setor agrícola brasileiro enfrenta uma das maiores pressões de margem dos últimos anos — e o açúcar é a exceção que merece atenção.

Agata Turini · 4 ago 2026 · 7 min de leitura
Café, Milho e Açúcar: O Que a Queda das Commodities Significa para o Produtor Brasileiro em 2025
Commodities · Turini

Produzir mais não significa necessariamente lucrar mais. Essa máxima do agronegócio nunca foi tão atual quanto agora. Em maio de 2025, os preços das principais commodities agrícolas brasileiras seguiram pressionados para baixo — e os números revelam um cenário que exige atenção redobrada de produtores, empresários e investidores do setor.

O que os números dizem sobre o mercado em maio de 2025

Segundo o relatório Cenário Agro de maio de 2025, elaborado pelo Instituto de Estudos do Agronegócio (IEAG) e publicado pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), o café arábica registrou queda de 3,2% no mês e acumula recuo de 15,4% nos últimos 12 meses. A situação é ainda mais severa para o café robusta (conilon): baixa de 4,1% em maio e impressionantes 33,1% de desvalorização no período anual.

O milho apresentou uma variação praticamente neutra no mês (+0,2%), mas também acumula queda de 0,5% no ano — sinalizando estabilidade frágil em um mercado pressionado por oferta abundante. Já o açúcar foi a exceção positiva do período: alta de 0,5% no mês e 5,3% de valorização nos últimos 12 meses, sustentado por fatores de demanda global e menor disponibilidade em algumas regiões produtoras.

Por que o café robusta caiu tanto?

A queda de 33,1% no café robusta ao longo de 12 meses não é um número isolado — ela reflete uma combinação de fatores estruturais e conjunturais que comprimem o mercado. Entre os principais estão o aumento da oferta global, especialmente oriunda do Vietnã e da Indonésia, e a pressão cambial sobre os preços expressos em reais. Além disso, o robusta enfrenta concorrência crescente no mercado de blends e cafés solúveis, o que limita a capacidade de os torrefadores pagarem preços mais elevados.

Para o produtor brasileiro de conilon, sobretudo no Espírito Santo e no sul da Bahia, essa desvalorização é sentida diretamente na margem operacional. Quem não travou preços com antecedência via contratos futuros ou hedge cambial está sendo duramente impactado.

O arábica também sofre — mas por razões diferentes

O café arábica, produzido principalmente em Minas Gerais, São Paulo e Paraná, acumula queda de 15,4% em 12 meses. Aqui, o diagnóstico passa por uma safra relativamente boa no Brasil, que aumentou a oferta disponível no mercado internacional, e pela valorização relativa do dólar, que torna o produto mais competitivo na exportação mas não compensa a perda de preço em reais para quem vende no mercado interno ou tem estrutura de custo em moeda nacional.

O desafio não está apenas na lavoura. Está também na gestão financeira da propriedade — na capacidade de planejar o fluxo de caixa em cenários de preço baixo sem comprometer os ciclos seguintes de investimento.

Milho: estabilidade aparente que esconde riscos

A variação praticamente nula do milho no mês (+0,2%) pode enganar quem olha só para o curto prazo. Mas o acumulado anual negativo de 0,5%, somado ao custo crescente dos insumos — especialmente fertilizantes e defensivos ainda pressionados —, comprime as margens de quem planta milho em larga escala. O mercado interno segue parcialmente sustentado pela demanda da pecuária e da indústria de rações, mas o volume sem estratégia pode pressionar ainda mais os preços nas próximas janelas de comercialização.

Para o produtor de milho segunda safra (safrinha), que responde por boa parte da produção nacional, o timing de comercialização é um dos fatores mais críticos. Guardar estoque esperando recuperação de preço pode ser uma armadilha, especialmente com custos financeiros crescentes.

Açúcar: a única alta do período — e o que isso revela

Com valorização de 5,3% em 12 meses e alta de 0,5% só em maio, o açúcar se destaca como o único ativo positivo no radar de commodities agrícolas deste relatório. O movimento reflete principalmente a pressão de demanda global, a menor disponibilidade de estoque em alguns mercados-chave e o papel estratégico do Brasil como maior exportador mundial do produto.

Para usinas e produtores integrados à cadeia sucroalcooleira, esse cenário abre uma oportunidade concreta de melhor remuneração — desde que haja equilíbrio na alocação entre açúcar e etanol, considerando também os incentivos do mercado de biocombustíveis.

Quem é impactado e o que está em jogo

A pressão sobre as commodities agrícolas não é apenas um problema dos produtores individualmente. Ela se desdobra ao longo de toda a cadeia: cooperativas que precisam de margem para operar, tradings que ajustam volumes de compra, bancos que revisam análises de crédito rural, e o próprio governo federal, que depende do desempenho do agro para fechar as contas da balança comercial.

Em 2024, o agronegócio respondeu por mais de 48% das exportações brasileiras totais. Uma queda sustentada nos preços das principais commodities pode reduzir o superávit comercial e pressionar o câmbio — o que, ironicamente, traz algum alívio parcial para os exportadores, mas não resolve o problema estrutural de rentabilidade no campo.

O que o produtor e o empresário do agro precisam observar agora

Diante desse cenário, alguns movimentos merecem atenção estratégica nos próximos meses:

1. Gestão de preço e hedge: quem ainda não travou parte da produção futura deve avaliar com urgência o uso de contratos futuros na B3 ou contratos de balcão com tradings. Proteger uma parcela da receita em cenários de queda é gestão, não especulação.

2. Controle de custo de produção: com receita pressionada, a diferença entre lucrar e ter prejuízo está cada vez mais na eficiência operacional. Revisão de contratos de insumos, planejamento de plantio e uso de tecnologia para reduzir desperdícios são caminhos concretos.

3. Diversificação de culturas: o desempenho do açúcar em relação ao café e ao milho reforça que depender de uma única commodity aumenta o risco. Propriedades com possibilidade de diversificação devem avaliar a viabilidade de novos cultivos ou integração lavoura-pecuária.

4. Acompanhamento de câmbio: boa parte da receita agrícola é indexada ao dólar. Movimentos no câmbio podem atenuar ou agravar os efeitos da queda de preços. Estar atento à política monetária brasileira e americana é parte da gestão financeira do agro hoje.

5. Acesso a crédito com inteligência: programas como o Plano Safra e linhas do Pronaf e Pronamp oferecem condições diferenciadas. Usá-los bem — e não apenas como salvaguarda emergencial — faz diferença na estrutura de capital da propriedade.

A leitura que o mercado precisa fazer

Volatilidade é uma característica permanente das commodities agrícolas — não uma anomalia. O que diferencia o produtor ou empresário que atravessa bem esses ciclos é a capacidade de antecipar movimentos, gerenciar risco com ferramentas adequadas e tomar decisões baseadas em dados, não em esperança.

O cenário de maio de 2025 não é catastrófico, mas é um sinal claro: volume sem estratégia pode pressionar margens a ponto de inviabilizar ciclos futuros de investimento. E o campo que não investe hoje terá menos para colher amanhã.

A diferença está cada vez mais na gestão — e quem entende isso já está à frente.

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