Mercado
ARROZR$ 59,03 AÇÚCARR$ 97,41▲ 404,2% BEZERROR$ 3.402 BOI GORDOR$ 346,50▼ -2,0% CAFÉ ARÁBICAR$ 1.771▲ 612,1% ETANOLR$ 2,85 MILHOR$ 66,15▲ 2,6% SOJAR$ 146,34▲ 12,7% USD/BRLR$ 5,0979▼ -0,5% SELIC14,00% a.a. ARROZR$ 59,03 AÇÚCARR$ 97,41▲ 404,2% BEZERROR$ 3.402 BOI GORDOR$ 346,50▼ -2,0% CAFÉ ARÁBICAR$ 1.771▲ 612,1% ETANOLR$ 2,85 MILHOR$ 66,15▲ 2,6% SOJAR$ 146,34▲ 12,7% USD/BRLR$ 5,0979▼ -0,5% SELIC14,00% a.a.
ÁGATA TURINI
Radar Partners
← Voltar para a capa Commodities

Café arábica cai 31% e conilon 23%: o que a queda de preços significa para o produtor brasileiro

Com cotações em forte recuo no segundo trimestre de 2026, cafezicultores precisam rever custos, estratégia de venda e proteção de receita para não ver a safra virar prejuízo

Agata Turini · 3 ago 2026 · 5 min de leitura
Café arábica cai 31% e conilon 23%: o que a queda de preços significa para o produtor brasileiro
Commodities · Turini

Quem planta café no Brasil está sentindo no bolso o peso de um mercado global que virou de cabeça para baixo. Em junho de 2026, o café arábica foi cotado a R$ 1.456,44 por saca de 60 kg — uma queda de 31,5% em relação ao mesmo mês de 2025. O conilon não escapou: chegou a R$ 967,11 por saca, com recuo de 23% no mesmo intervalo, segundo dados do Boletim CEAG do segundo trimestre de 2026, produzido pelo Pecege.

Para colocar em perspectiva: um produtor que vendeu café arábica em junho de 2025 recebeu, em média, algo próximo de R$ 2.100 por saca. Um ano depois, essa mesma saca vale R$ 643 a menos. Em uma propriedade que comercializa 1.000 sacas por safra, a diferença chega a R$ 643 mil a menos na receita bruta. Sem mudança no custo de produção, a conta não fecha.

O que está por trás da queda?

O mercado global de café passou por uma montanha-russa nos últimos dois anos. Em 2024 e início de 2025, os preços dispararam impulsionados por estoques mundiais baixos, problemas climáticos no Brasil e no Vietnã — principais produtores de arábica e robusta, respectivamente — e uma demanda internacional aquecida. O resultado foi uma corrida especulativa nas bolsas de commodities que empurrou as cotações a patamares históricos.

O que vemos agora é o movimento contrário: normalização dos estoques, expectativa de safra brasileira mais robusta em 2025/26 e realização de lucros por parte dos fundos especulativos. Quando os preços sobem muito e rápido, a queda pode ser igualmente intensa — e o produtor que planejou sua receita no topo do ciclo é o que mais sofre.

Além disso, o câmbio tem jogado papel ambíguo. Um dólar mais alto protege parcialmente a receita dos exportadores, mas não elimina a pressão quando a queda em dólar é tão acentuada quanto a observada neste período.

Quem está mais exposto ao risco?

Os estados de Minas Gerais e Espírito Santo concentram a maior parte da produção nacional de arábica e conilon, respectivamente. Propriedades de menor escala, com custo de produção elevado por saca e sem acesso a instrumentos de hedge ou travas de preço, são as mais vulneráveis neste cenário.

O café conilon, cultivado predominantemente no Espírito Santo, enfrenta um desafio adicional: apesar de ter um custo de produção historicamente mais baixo que o arábica, a queda percentual de 23% comprime margens que já eram mais apertadas. Pequenos produtores familiares que dependem exclusivamente da commodity sem nenhuma estratégia de diversificação ou comercialização antecipada são os mais impactados.

Produzir mais não significa lucrar mais

Essa é uma das armadilhas mais perigosas do ciclo do café. Em anos de preço alto, há incentivo para expandir área plantada, investir em lavouras novas e aumentar produtividade. O problema é que a decisão de plantar é tomada no pico, mas a colheita acontece na baixa. O café arábica demora de dois a três anos para entrar em produção plena. Quem plantou em 2023 ou 2024, motivado pelas cotações recordes, está colhendo agora — com preços em queda livre.

Isso não significa que expandir foi um erro. Significa que expandir sem estratégia de comercialização é um risco calculado que muitos produtores não calcularam.

O que o produtor precisa observar agora

O momento exige atenção em três frentes simultâneas:

1. Custo de produção por saca: saber com precisão quanto custa produzir cada saca é o ponto de partida. Sem esse número, é impossível saber se está vendendo com margem positiva ou acumulando prejuízo disfarçado de receita.

2. Estratégia de venda: vender tudo de uma vez em momento de baixa é o caminho mais curto para o prejuízo. Parcelar a comercialização ao longo dos meses — especialmente se houver expectativa de recuperação de preços — pode preservar receita. Travas de preço no mercado futuro (B3 ou ICE) são ferramentas disponíveis para quem tem acesso e orientação.

3. Diferenciação de produto: cafés especiais, certificados, de origem rastreada e com pontuação sensorial acima de 80 pontos têm acesso a mercados premium com menor exposição à volatilidade das bolsas de commodities. A diferenciação não resolve o problema no curto prazo, mas é a estratégia estrutural que separa produtores que lucram de produtores que sobrevivem.

Há oportunidade nessa queda?

Para quem tem caixa e visão de médio prazo, sim. Ciclos de baixa em commodities agrícolas são historicamente seguidos de recuperação — especialmente quando a demanda global por café segue crescente, como indicam os dados de consumo nos países asiáticos. A China, por exemplo, tem expandido seu mercado de café de forma acelerada.

Cooperativas que oferecem programas de comercialização coletiva, contratos a termo e acesso a crédito de custeio com taxas subsidiadas são aliadas estratégicas neste momento. Produtores que estão isolados, sem acesso a essas ferramentas, têm urgência em buscar assistência técnica e financeira antes que o fluxo de caixa aperte.

O desafio não está apenas na lavoura

A queda de 31,5% no arábica e de 23% no conilon em apenas um ano é um sinal claro de que o maior risco do cafeicultor brasileiro hoje não está dentro da propriedade — está no mercado. Clima, pragas e produtividade são desafios conhecidos e gerenciáveis. A volatilidade de preço, sem ferramentas de proteção, pode destruir o trabalho de uma safra inteira em poucos meses.

O Brasil é o maior produtor e exportador de café do mundo. Isso é uma posição de força — mas que só se converte em resultado financeiro real quando o produtor tiver acesso à informação, à estratégia e às ferramentas que o mercado já oferece. A safra não espera. O planejamento precisa começar agora.

Widget JP Ao Vivo
AO VIVO